Viagem para a América

Do diário do engenheiro da Voith Albert Ungerer

Primeira parte: de Heidenheim para Nova York

Um jovem engenheiro da Voith parte para levar eletricidade para a América do Norte. O destemido Albert Ungerer é encarregado de negociar com os americanos em nome da empresa Voith. Está em jogo uma grande encomenda. A Voith pretende fornecer turbinas para uma usina. Uma usina que fica em um lugar muito especial: nas famosas Cataratas do Niágara. As fabulosas cataratas na fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá estão entre as maiores do mundo. Ungerer viaja de navio, em 1909, para Nova York. Uma viagem que é uma verdadeira aventura para a terra onde tudo é possível e que o funcionário da Voith registrou em seu diário*.

23 de setembro de 1909 – Na cabine

Albert Ungerer atravessou o Atlântico de navio em 1909 - e registrou sua experiência no seu diário

Já faz algumas horas que nos balançamos sobre o oceano. Depois de perguntar ao comissário de bordo, abrimos a escotilha na cabine para poder aproveitar o puro ar marinho, dentro do possível, mesmo enquanto dormimos. Há ganchos para pendurar roupas nos dois lados, eu escolhi o que fica voltado para a proa e parece ter sido uma boa escolha. Ao amanhecer, sou despertado por um ruído leve, enquanto minha posição no beliche muda. Levanto-me de um pulo – tarde demais. Chuá-tchibum, uma onda mais curiosa entra pela janela e deixa o guarda-roupa do Sr. Siedenburg (um companheiro de viagem) salgado. Para evitar que isso se repita, fecho a escotilha e fico contente. Da próxima vez, vou pendurar minhas roupas novamente na parte da frente …

“Mar lilás, metade chuva, metade sol; a humanidade desenvolve um enorme apetite – se continuar assim, até Nova York todos sofrerão de gota.”

Do diário de Albert Ungerer, 22 de setembro de 1909

23 de setembro de 1909 – O brilho de Berlim

A Senhorita Farrar (ex-estrela da ópera de Berlim), na vida real, não é bem um protótipo de beleza e brilho celestial, mas tem lá algo de muito simpático na sua aparência. Ela demonstra um certo mau gosto com uma assustadora capa de vison, que pode até ser valiosa, mas é simplesmente horrível, e também com um cachorrinho de colo ainda mais horroroso, preto com manchas amarelas, provavelmente um cruzamento de buldogue com salamandra.

25 de setembro de 1909 – E ainda piorou

As malas dançam como bruxas pela cabine, as paredes todas estalam e fazem barulho, é impossível dormir, portanto, o jeito é sair! Não se consegue ficar de pé, é preciso se vestir sentado, mas cada movimento deixa uma sensação estranha. Deixo a barba por fazer, é melhor chegar à mesa como um porco-espinho do que com metade do nariz cortado fora.

29 de setembro de 1909 – Finalmente em Nova York

… peço uma sopa de tomate e um bife de lombo de vaca, ao que ele (o garçom) põe à minha frente uma mesinha estreita e traz pão, manteiga – bem, quer dizer, digamos que seja manteiga –, água com gelo e a sopa – um caldo afarinhado vermelho e horroroso, misturado com açúcar. Logo em seguida, um aroma doce de ferraria toma conta do ar e surge uma costela de boi completa, de uns dois quilos, queimada por fora e pingando de sangue por dentro, chamam a isso de “grilled” – é realmente de ser grelhado! Corto um pedaço desse assado para canibais e uso uma boa porção de mostarda, sal e pimenta, para encobrir o gosto de queimado por fora e a falta de gosto por dentro.

*Nota do autor: Com exceção da introdução, os textos são trechos originais do diário de Albert Ungerer. A ortografia e a gramática não foram alteradas. Partes que não foram reproduzidas estão identificadas com (...).

“O navio balança muito, as refeições têm pouca procura.”

Do diário de Albert Ungerer, 24 de setembro de 1909